Sinopse: Quando Tessa Gray, uma jovem de dezasseis anos, atravessa o oceano para se reunir ao irmão, o seu destino é a Inglaterra do reinado da rainha Vitória e aventuras aterrorizantes aguardam-na no Mundo-à-Parte de Londres, onde vampiros, bruxos e outras personagens sobrenaturais partilham as ruas iluminadas a gás. Apenas os Caçadores de Sombras, guerreiros que se dedicam a livrar o mundo de demónios, conseguem manter a ordem no caos. 
Raptada pelas misteriosas Irmãs Escuras, membros de uma organização secreta chamada Clube Pandemonium, Tessa fica a saber que também pertence ao Mundo-à-Parte e que possui uma habilidade rara: o poder de se transformar, quando quer, noutra pessoa. Além disso, o Magister, a figura misteriosa que dirige o clube, tudo fará para reclamar o poder de Tessa para si. 
Sem amigos e perseguida, Tessa refugia-se junto dos Caçadores de Sombras do Instituto de Londres, que lhe juram encontrar o irmão se usar o seu poder para os ajudar. Em breve se sente fascinada e dividida entre dois amigos: James, cuja beleza frágil esconde um segredo mortal, e Will, um rapaz de olhos azuis cujo humor caústico e temperamento volúvel mantém toda a gente à distância... ou seja, todos menos Tessa. Enquanto a investigação os vai arrastando para o âmago de uma conspiração tenebrosa que ameaça destruir os Caçadores de Sombras, Tessa percebe que poderá ter de escolher entre salvar o irmão e ajudar os seus novos amigos a salvar o mundo...e que o amor pode ser a magia mais perigosa de todas. 

OpiniãoAnjo Mecânico foi uma surpresa. A GOOD ONE. Cassandra Clare maravilhou-me com o seu Mundo das Sombras em Os Instrumentos Mortais, e continuou a fazê-lo com As Origens ou The Infernal Devices, no título original.
Para os mais familiarizados com o primeiro trabalho da autora, Anjo Mecânico, o primeiro livro de três excede as expectativas. Pelo menos, foi o que aconteceu comigo. Ao passo que em Os Instrumentos Mortais a história decorre em Nova Iorque nos tempos actuais, As Origens passa-se em Londres em Abril de 1878. Isto dá mais ao livro, dá um contexto histórico, dá relevo e dá um sentido mais real ao Mundo das Sombras.

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Mas, para os leitores familiarizados com Os Instrumentos Mortais, é fácil perder-mo-nos nas comparações, procurar semelhanças onde elas talvez existam, ou não. O facto de os apelidos serem familiares, faz-nos procurar por parecenças que não são importantes. Um dos maiores exemplos é William "Will" Herondale. Cassandra Clare criou um mundo incrivelmente vasto ao nível do fantástico mas, em termos de personagens, penso que se limitou ao já conhecido e comprovadamente amado pelos leitores: o protagonista masculino arrogante, sarcástico mas com o seu quê de vulnerabilidade. Claro que, a percepção de tal realidade não me fez deixar de apreciar menos Anjo Mecânico ou de rir menos ou adorar menos o personagem de Will. Do mesmo modo, há pequenas ligações aqui e ali, que tornam a leitura mais divertida e familiar.
Por outro lado, a protagonista desta vez é Theresa "Tessa" Gray, uma rapariga de dezasseis anos que se vê a meio de uma mudança de vida e que acaba por dar de caras com o Mundo das Sombras e a força de carácter de Tessa é nova. Cassandra Clare é exímia na arte de criar personagens femininas fortes o suficiente para irem à luta e corajosas o suficiente para seguirem para a etapa seguinte quando tudo parece perdido mas, Tessa Gray, além de forte e corajosa, é uma sobrevivente. Não de demónios ou vampiros, mas de algo pior do que isso. E é algo novo, e refrescante. E claro que, o seu amor pela leitura, torna mais fácil ao leitor, relacionar-se com ela, apaixonar-se lentamente pela sua personalidade viva e curiosa. O mesmo para Will.
Em Anjo Mecânico houve alturas em que me esqueci de que estava a ler, de tal modo que estava embrenhada nas palavras. A escrita da autora é absorvente, à falta de melhor palavra. As páginas voaram, assim que me vi imersa na leitura. Ao contrário de Clary Fray, que acaba por descobrir que tem sangue de Caçadora de Sombras, Theresa Gray descobre que é uma Habitante do Mundo-à-Parte, embora com um poder desconhecido. Essa oscilação de pontos de vista é bem-vinda, uma vez que dá-nos uma nova perspectiva. O preconceito agora, é nosso.
O que achei interessante e, por vezes exasperante, foi a própria mentalidade de Tessa face à ideia de mulheres como Charlotte quererem lutar, darem um contributo igual ao dos homens e, inclusive, de se vestirem como eles, aquando o combate. Esta ideia retrógrada de um tempo passado, enraizado num livro de fantasia urbana tornou a história, mil vezes mais interessante, uma vez que a autora dá-nos pólos opostos.
Por um lado, temos a personagem de Charlotte Brandwell, directora do Instituto de Londres, que é obrigada a dar tudo por tudo para ser ouvida e respeitada, com uma mente perspicaz e brilhante, mas que, por ser mulher é pouco reconhecida. Por outro e, pela primeira vez, vemos alguém que nasceu com sangue de Caçadora de Sombras, mas que não quer fazer parte desse mundo - Jessamine Lovelace. Uma personagem que ficaria feliz por fazer chá e tornar um lar confortável para um hipotético marido. Algo que, nos dias de hoje, seria um pensamento considerado anti-feminista.
Jessamine Lovelace desmaiaria face à visão de Isabelle Ligthwood.
Outra diferença em relação a Anjo Mecânico e A Cidade dos Ossos é a profundidade emocional da história. Anjo Mecânico lida constantemente com a morte e possibilidade da mesma o que dá um ambiente mais negro à história concordante com a própria atmosfera da cidade de Londres. Essa negritude é, na maior parte das vezes atenuada pelos comentários irónicos de Will ou pelas palavras de esperança de Jem e, seja como for, são sempre bem-vindos.
É realmente difícil não adorar Anjo Mecânico e o pequeno núcleo de personagens que Cassandra Clare mais uma vez, apresentou. No entanto, não achei o antagonista de As Origens, minimamente comparável a Valentine Morgenstern, pelo contrário. A ideia mecânica por detrás desta presumível "guerra" não chegou para me convencer mas, foi o suficiente para me manter alerta e curiosa para saber o seu desfecho.

One must always be careful of books," said Tessa, "and what is inside them, for words have the power to change us.


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